escute-me com os olhos
23/04/2012
Se não fosse pelo vento
E aí que me peguei te amando mais uma vez. Assim, sem mais nem por quê, no meu caminho de volta, enquanto via as folhas no caminho se misturarem com tantos rostos desconhecidos. E dessa vez nem ousei te procurar em nenhum deles. Também não senti seu cheiro e tão pouco ouvi sua voz. Mas te amei.
Te amei por essa coisa assimétrica da sua barba que um dia cheguei acreditar que tinha sido desenhada a mão livre. E seus olhos que não tem cor e nem medo de nada. Quando te amei pela primeira vez, eu soube que era por medo desses olhos que se empunhavam como espadas diante de mim. E te amei também naqueles pequenos pontinhos rosados da sua pele, que durante a noite formam uma constelação inteira em um céu tão branco, como eu nunca tinha visto antes.
E continuei meu caminho assim, te amando em segredo pra que ninguém roubasse isso de mim, escondi de todos aqueles outros rostos a minha alegria, e guardei tua imagem no meio desse fim de tarde, meio que correndo, mas só porque ventava muito no meu caminho.
16/04/2012
Água morna

Era praticamente água morna com açúcar, mas eu chamei de chá. Também troquei a marca dos meus cigarros, uns sem nicotina; e por um instante quis não pensar em ti.
Só por um instante. Mas o céu era o reflexo dos teus olhos, alguma coisa de castanho com esse verde escuro que nas noite de primavera são como um oceano em meio à tormenta.
São tantas vozes que não consigo distinguir, mas teus olhos estavam lá, soube disso quando procurei em vão qualquer estrela, qualquer sinal de uma manhã ensolarada ou de um domingo com cheiro de frutas vermelhas.
De tanto que quis não pensar, acabei por não te esquecer. Doeu um pouquinho, mas juro que foi só um pouquinho. A brisa gelada procurando minha pele e a fumaça do cigarro colorindo a sacada me tiraram daqui, e nesse instante, nesse mesmo instante que quis não pensar mais ti, eu já era tua.
Era só água morna com açúcar, mas eu chamei de chá, ou de amor, no fim é a mesma coisa.
04/12/2011
01/08/2011
O menino e o mundo
22/07/2011
Para apagar

Sim, de novo e mais uma vez, tento encher as mãos com qualquer coisa, só pela segurança de não me soltar de um porto que só é seguro dentro desse quarteirão. Se me perguntar, te digo com convicção que sei muito bem do que me carrego e de que não abandono. Presa no meio dessa neblina que já não me parece mais tão fria, te procuro atrás de sombras que eu mesma pinto nas esquinas. E pela primeira vez, sinto como se não conhecesse nada, nenhuma dessas calçadas que tanto andamos, dessas ruas que tanto corremos, desses bancos que muitas vezes não sentamos, mas pensamos em como seria bom ficar ali, só olhando os carros que passam e vão pra sabe-se lá aonde.
Assim sinto esse medo de qualquer coisa desconhecida tomando conta de tudo que tenho, esse medo de não saber mais quem é você, ou quem sou eu, medo mesmo de não saber onde está nosso começo e com isso tentar achar o fim das coisas, apenas por achar, e saber que esta ali.
Se sei de você, sei que é livre, e isso é tudo. Assim procuro mais um drink barato, apago meu cigarro, e espero te encontrar no próximo poste, ou quem sabe no seguinte.
07/06/2011
Roda Gigante

Pra cada piscar de olhos, a certeza de uma noite mal dormida. O inevitável ocilar entre toda a negritude do seus próprios delirios e a graciosidade daquela pele, rosada por causa do frio. Essa era a infinita viagem entrem abrir e fechar os olhos naquela noite. Mas, o que ela podia esperar? Tinha abrigado todas as suas esperanças em um castelo de areia. Aquela qualquer coisa crua de um sentimento infatil meio natimorto foi esquecido em meio à tantas tempestades de vento. Que agora, mesmo impalpavél insiste em se fazer presente.
Pouco a pouco, como quem come sem fome, ela se entrega sem desejo. “Um, dois, três”. Ela conta, ela pensa, mas não calcula, é assim que ela mergulha, novamente de olhos bem fechados, na imensidão de todas as suas dúvidas. Como se anestesiada pela falta de talento do momento, pudesse ser perdoada pelas falhas do passado.
Levanta então o rosto, inundado de tormentos, na esperança de um gesto qualquer, que diga sim, ou ao menos talvez. Ilusão. Se engana conciente, e faz que está bem. Seu deus a pega pela cintura, ela sorri. Está feliz entre aqueles braços, e tudo recomeça, pela terceira ou quarta vez.
04/06/2011
Pra dizer até logo

No meio da densa fumaça que sempre o cerca, ele temeroso segura seu cigarro, com os dedos cheios de anéis, a ponta das unhas amareladas, esboçando um francês pré ensaiado e um pouco ameaçador. Ele não para, o frenesi faz parte do seu ser. É estranho pensar que assim ele me tranquiliza.
Ele não vê como eu vejo, não sei se pela obrigação imposta pelas suas lentes, ou pela dor que o acompanha escondida atraz de uma Lomo amadeirada. Gosto de pensar nele como um cigano, desses que as vezes assustam a gente na rua. Ele bebe, ele grita, chora e estranha. É como se por dentro ele balançasse entre o ter e o não ter um coração. Sua fuga é a noite, onde ele tem certeza de todas as guias, todos os bares e nunca se cansará de olhar pra cima na esperança sempre frustrada de encontrar uma estrela.
Quando vejo ele, se misturando com as luzes da rua, meio ocre, olhando atravez do copo de cerveja, sei que ali ele pode amar. Ciganos não têm permissão para amarem em qualquer situação. Então ele só ama quando está anestesiado. E eu queria segurar ele pelas mãos, e dar uma volta por aquelas ruas que já são dele. Queria poder mostrar que aqui a gente não tem estrelas, mas que se tivessemos, elas desceriam até aquela esquina, pra brindar o amor dele. Que todas as coisas do mundo esperam anciosamente pelo dia em que ele as irá olhar, e registrar, e pensar nelas. Eu espero por esse dia também.
Queria dizer que o amo. Queria pedir pra ele ficar. Mas virei meu copo, com qualquer bebida doce demais pro meu espirito, deixei uma lágrima pingar na mesa, e fui embora, sentindo um cheiro nauseante de qualquer coisas misturada com dor.
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